Desde pequena, não era raro ouvir: "Érica, você não é fácil..". Fui uma criança esperta, diagnosticada com DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção), inquieta e falastrona. Ainda assim, adorável. Sem muita técnica, eu tinha habilidade de usar essas características a meu favor.
A medida que o tempo passou, cada vez mais eu reconhecia a criança que fui. O que eu não sabia era que eu ainda ia topar com muito adulto pelo caminho..e sem aviso, ó: virei adulta também.
O DDA é um distúrbio simples, que tem tratamento, mas não tem cura. Na escola, era difícil prender minha atenção por muito tempo. Os professores faziam reuniões a meu respeito, criavam novas atividades, piravam. Meus pais se distraíam por cinco minutos e iam me encontrar brincando dentro da máquina de lavar. Pra uma criança, esse é o efeito do DDA: notas baixas e traquinagens sem fim. Pra isso, o paleativo: Ritalina, um remedinho que eu chamo de "atenção em cápsulas". As notas melhoraram e, dentro do possível, eu era uma criança mais focada e menos arteira, pra alegria total dos meus velhos.
Na vida adulta, meu DDA se mostrou mais intenso, e a Ritalina, menos eficaz. É assim: o que funciona com a maioria, certamente não funciona comigo. Trabalho, amigos, amores: pra que durem, todos eles precisam me manter em movimento. Precisam me convidar a confrontar minhas convicções, e me dar o que preciso, quase nunca quando espero. Sabe lidar comigo quem se faz presente respeitando o meu ritmo, que é quase insano.
O saldo do DDA na minha vida é positivo: só gente finíssima por perto. Ainda assim, eu vivo dificultando meus finais felizes: quando não tenho medo de perder a essência, minha essência mete medo nos outros. E vice-versa.
"Érica, você não é fácil.."
Eu sei.