sexta-feira, 1 de agosto de 2014

O Cara

Eu sempre achei que saberia quando chegasse o cara. Aquele amor que eu sempre ouvi falar, que vendiam no cinema, que liam pra mim nos livros. Eu achava que eu saberia exatamente o que fazer e como agir. Vivi muitas histórias que acabaram, até que ele chegou. Para minha surpresa, o cara não é nada do que eu esperava.

Eu não pensava que alguém teria o dom de transformar em certezas todas as minhas tantas dúvidas. Eu não acreditava que existiria alguém capaz de enxergar os meus defeitos e minhas qualidades, e amar por inteiro cada um deles.

O cara chegou quando eu finalmente tomei o controle sobre a minha vida e sobre os meus sentimentos. Ele não revolucionou, não derrubou muros, não devastou: ele trouxe o novo. Trouxe calma pra um coração já familiarizado ao caos. Trouxe pra alguém que já havia se acostumado a viver com a ideia de ser só, a descoberta que compartilhar a vida é incrível. Trouxe o peito aberto, a presença constante e as mãos estendidas pra abraçar o que sou.

O cara não é nada do que me contavam, porque ele existe. Ele ocupa espaço, tem pêlos, um time que é rival do meu, alguns defeitos e tantas qualidades. Ele é real. E me faz me sentir inteira, real também. 

O cara não é nada do que eu esperava...mas é o cara.

E é muito mais do que eu imaginei.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Não Quero Lembrar Que Eu Erro Também

Desde pequena, não era raro ouvir: "Érica, você não é fácil..". Fui uma criança esperta, diagnosticada com DDA (Distúrbio do Déficit de Atenção), inquieta e falastrona. Ainda assim, adorável. Sem muita técnica, eu tinha habilidade de usar essas características a meu favor.

A medida que o tempo passou, cada vez mais eu reconhecia a criança que fui. O que eu não sabia era que eu ainda ia topar com muito adulto pelo caminho..e sem aviso, ó: virei adulta também. 

O DDA é um distúrbio simples, que tem tratamento, mas não tem cura. Na escola, era difícil prender minha atenção por muito tempo. Os professores faziam reuniões a meu respeito, criavam novas atividades, piravam. Meus pais se distraíam por cinco minutos e iam me encontrar brincando dentro da máquina de lavar. Pra uma criança, esse é o efeito do DDA: notas baixas e traquinagens sem fim. Pra isso, o paleativo: Ritalina, um remedinho que eu chamo de "atenção em cápsulas". As notas melhoraram e, dentro do possível, eu era uma criança mais focada e menos arteira, pra alegria total dos meus velhos. 

Na vida adulta, meu DDA se mostrou mais intenso, e a Ritalina, menos eficaz. É assim: o que funciona com a maioria, certamente não funciona comigo. Trabalho, amigos, amores: pra que durem, todos eles precisam me manter em movimento. Precisam me convidar a confrontar minhas convicções, e me dar o que preciso, quase nunca quando espero. Sabe lidar comigo quem se faz presente respeitando o meu ritmo, que é quase insano.

O saldo do DDA na minha vida é positivo: só gente finíssima por perto. Ainda assim, eu vivo dificultando meus finais felizes: quando não tenho medo de perder a essência, minha essência mete medo nos outros. E vice-versa.

"Érica, você não é fácil.."

Eu sei.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Ensaio

Depois de tanto tempo e do muito que sempre acontece quando se trata da gente, depois de drinks e praias e aviões e mudanças, você ainda acredita em nós. Tudo isso nos trouxe até aqui, e finalmente a gente pode começar, então pára um pouco e senta aí, que eu tenho umas coisas pra te contar.

Eu sou improviso puro. Não sei tentar sem conseguir e sou intensa demais pra experimentar sem me envolver.

Eu vivo uma vida inteira por dia e custo a dormir porque eu acho um desperdício essas fatias de 24 horas que dividem tudo. Não sei ir embora de lugar nenhum sem achar que eu poderia ter ficado mais. Penso muito em tudo e não analiso nada, porque analisar demais acaba com qualquer essência.

Tem dias que falo um tanto, tem dias que me calo e espero silêncio em troca. Tenho milhões de amigos e faço questão de dividir a vida com eles, o que me toma um tempo danado.

Pessoas confiáveis sempre têm muito do melhor um do outro, e isso é uma das poucas coisas em que acredito plenamente. Sendo assim, só volto se você me deixar ir e só aviso quando tenho vontade. Comigo longe você não vai ter muita certeza de nada, mas vai me reconhecer em tudo. Eu toco a vida com um tanto de leveza e muito pouca paciência, e gente racional demais acaba com a minha graça.

Não tenho verdades prontas, mudo de ideia toda hora e gosto de ser levada a pensar. Não me apego a erros, desde que eu consiga ver qualquer inocência neles.

É bem provável que você goste mais da idéia de nós dois juntos do que tenha vontade de abraçar o que sou. E se for assim, eu prefiro que você fique aí, bem quieto junto às suas expectativas.

Melhor você não correr o risco de descobrir o quanto eu posso ser real.

O quanto eu posso ser letal.




No Dia Em Que O Amor Acabou

No dia em que o amor acabou eu acordei bem cedo, num susto. Devo ter sonhado, mas você sabe, eu raramente me lembro dos meus sonhos. Fiquei na cama olhando pra onde você dormia, no ritual diário de materializar as nossas manhãs. Nada.

No dia em que o amor acabou eu fiz um café que não tomei, acendi um cigarro que não fumei, lembrei de algumas coisas que eu quis, mas que você nunca fez. Coloquei uma música que lembra muito a gente. Nada.

No dia em que o amor acabou eu não me conformei. Parei na sua porta e fiquei lá por vinte minutos, esperando a vontade de entrar de surpresa pelo portão sempre destrancado. Até fiz hora, comprei uns chicletes naquele bar da esquina. Nada.

Não sobrou nada em mim. Nem um vestígio da ilusória genialidade do que fomos nós dois. Nem uma saudade safada, daquelas que me pegavam desprevenida no meio da tarde de um dia qualquer. Nem um sorrisão no trânsito parado, de lembrar do quanto eu pensava que a gente era incrível. Nada, nada.

Numa última tentativa de não deixar você pra trás, digitei seu número. Não liguei. Não tive vontade de te contar que o amor acabou.

Tentei chorar, por mim ou por você. Qualquer lágrima de tristeza ou de alegria que ainda pudesse fazer algum sentido. Nada.

No dia em que amor acabou eu fui dormir inquieta, acreditando que no dia seguinte eu ainda fosse acordar contemplando o seu lado da cama e cultivando esse amor sem alimento e sem remédio.

Nada. Acordei de novo sem as nossas manhãs.

Sem anúncio, sem barulho, implacável: foi assim que o amor acabou.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Durma Bem, Me Queira Bem

Confesso que foi a minha primeira vez sem drama. Sem medo.

Poque a real é que antes eu te queria muito, e a qualquer custo. Eu só queria você, não importavam as circunstâncias e as consequências, e de repente, depois de tanto tempo, eu tive a chance de te ouvir com paciência. De te olhar com calma, de sentir o seu cheiro sem sentir meu coração explodindo, de te tocar sem que parecesse a última vez, de pegar no sono sem te querer acordado.

E ficou de manhã, eu acordei, olhei pro lado e te vi.

E me vi.

E lembrei da pessoa que eu era, sempre ali à espreita do braço estendido pra deitar, sem conseguir dormir, tamanho o vício em você. Lembrei do quanto foi difícil deixar você ir, e do quanto eu cresci e me descobri depois que você foi. 

Me levantei, e enquanto você dormia, te cobri com o lençol e muitos beijos. Deixei umas palavras também, pra você não acordar sozinho. Da porta, te olhei dormindo, e pedi bem forte por você e por mim e pelas nossas asas, pra que a gente voe sempre bons ventos. 

E voltei.

Voltei pros meus braços, pro conforto quentinho da minha companhia. Pra paz da minha presença, pro sossego que eu busquei tanto em você, e que eu finalmente consegui encontrar...em mim.

Boa noite, querido.

Durma bem.


segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Caminho

Felicidade não é lugar, é caminho.
Há quem aponte a estrada errada;
Há quem ceda abrigo e cobertor;
Há quem saia pra deixá-lo mais limpo;
Há quem chegue pra fazê-lo melhor.
Feliz é quem olha longe, é inteiro, segue em frente.
Enfrente!
Não é chegar, é saber pisar o chão.
É caminhar.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Minha Cara


Eu não ia escrever sobre você. Mas é que a gente tem os olhos da mesmíssima cor e uma coleção de camisas xadrez, e no dia em que eu te vi pela primeira vez eu achei você esquisito, e te falei que eu bebia vodka pura, mas só em casos extremos como aquele, quando fazia muito frio.

Eu nem pensava em por você em palavras, até que um dia eu te vi de novo, e a gente se percebeu na mesma hora mas a gente não falou nada. E a gente riu, e se descobriu, e ficou de manhã, e no outro dia eu já tinha acordado com você na cabeça, mas meu coração é maluco e manda muito em mim. Aí eu te vi de novo, mas já não era você comigo. 

Eu não ia escrever sobre você, porque nem tem nome o que eu sinto. É vontade de estar perto, e de falar a toa e ficar rindo, e ouvir se você tem umas histórias engraçadas, e te contar uns casos que eu sei que você vai morrer de rir. Mas você não é só meu amigo e você sabe disso tanto quanto eu, e a gente alimenta essa história, mesmo sabendo que não dá. Agora já não sou eu com você.

Eu não ia contar que existiu um “nós dois” aqui, mas eu posso. Eu posso porque o meu coração é livre, porque eu lembro exatamente da luz que escapa da cortina e entra pela janela do seu quarto, e porque eu acho que eu combino muito mais com você do que qualquer pessoa. Sério, mesmo que a gente esteja em um lugar cheio de todos os tipos de pessoa, eu combino muito mais com você do que qualquer uma delas e ninguém  que vê a gente junto nunca cometeu o crime que seria dizer o contrário. 

Eu não ia escrever sobre você não, mas eu tenho essa mania.

Você me inspira, rapaz.