No dia em que o amor acabou eu acordei bem cedo, num susto. Devo ter sonhado, mas você sabe, eu raramente me lembro dos meus sonhos. Fiquei na cama olhando pra onde você dormia, no ritual diário de materializar as nossas manhãs. Nada.
No dia em que o amor acabou eu fiz um café que não tomei, acendi um cigarro que não fumei, lembrei de algumas coisas que eu quis, mas que você nunca fez. Coloquei uma música que lembra muito a gente. Nada.
No dia em que o amor acabou eu não me conformei. Parei na sua porta e fiquei lá por vinte minutos, esperando a vontade de entrar de surpresa pelo portão sempre destrancado. Até fiz hora, comprei uns chicletes naquele bar da esquina. Nada.
Não sobrou nada em mim. Nem um vestígio da ilusória genialidade do que fomos nós dois. Nem uma saudade safada, daquelas que me pegavam desprevenida no meio da tarde de um dia qualquer. Nem um sorrisão no trânsito parado, de lembrar do quanto eu pensava que a gente era incrível. Nada, nada.
Numa última tentativa de não deixar você pra trás, digitei seu número. Não liguei. Não tive vontade de te contar que o amor acabou.
Tentei chorar, por mim ou por você. Qualquer lágrima de tristeza ou de alegria que ainda pudesse fazer algum sentido. Nada.
No dia em que amor acabou eu fui dormir inquieta, acreditando que no dia seguinte eu ainda fosse acordar contemplando o seu lado da cama e cultivando esse amor sem alimento e sem remédio.
Nada. Acordei de novo sem as nossas manhãs.
Sem anúncio, sem barulho, implacável: foi assim que o amor acabou.
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