sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Sapiência

Eu conheço pessoas que conseguem ser mais razão que coração: não sei se sinto raiva ou inveja. E eu digo isso por que minha razão me desconhece, ao passo que ela deveria pelo menos saber quem eu sou; e meu coração sabe mais de mim do que eu gostaria.

Quero poder levar alguma coisa na vida sem precisar pôr alma demais, que a alma também se cansa desse ir e vir incessante, e sem atropelar tudo com a imprudência de quem nunca teve (e sempre tem) muito a perder.

Eu vivo tendo provas de que o caminho é esse, e por alguma razão - que eu conheço muito bem e também não sei aceitar - sigo pelo lado oposto, pelo avesso.

O certo é que nessa dança insana tem tudo que faz bem e tudo que faz mal. Quase sempre eu sei que não devo, mas bebo desse coquetel, esperando que o gosto indefinido valha a pena no final.

E um dia vai valer.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Geração ípsilon

Dia desses, às 3 da manhã, me peguei refletindo sobre como essa nossa geração dorme pouco.

Até hoje, (eu marmanja) as vezes deito com meu pai na cama dele. Ali é onde eu aprendo mais, é onde eu compartilho tudo, e é onde eu me sinto trocando o sapato apertado pelo chinelo, sabe essa sensação? Então, só ele me proporciona isso. E ele, que é geração X convicto, nesse dia falou algo que eu parei pra pensar: "Filha, já percebeu como tudo se tornou perecível? A vida ficou mais difícil de administrar!" Dito isso, ele voltou a ver os resultados da rodada no iPhone, a TV ligada na GloboNews, o notebook do lado e eu deitada no colo.

A realidade é que meu sábio pai X tem razão: tudo ficou muito perecível mesmo. O tempo, os espaços e as relações. E mais: ficou natural. Todos os dias quando acordo, vejo o aplicativo da meteorologia no BlackBerry, ao invés de simplesmente abrir minha janela. Tomo meu café rápido lendo os tweets dos meus amigos, e geralmente dou "bom dia". Saio de casa e twitto sobre o trânsito parado, sobre as pessoas com pressa, sobre as coisas na minha cabeça.

Fora essa dependência que o 3G me trouxe, eu sou um tanto conservadora. Acredito mais em sentar no bar pra falar da vida do que no MSN, apesar de estar online o tempo todo. Acredito mais em fotos reveladas do que em digitais, apesar do Facebook e do Orkut. E acredito mais nas relações que têm verdade, que têm pessoas inteiras, que sobrevivem à essa corrida em busca do amanhã, e do depois de amanhã, e do futuro que acontece todos os dias - e que, nessa onda, acaba passando despercebido.

A gente começa a ver o valor das coisas simples. Sentar com meu avô pra ouvir as histórias do impacto pós guerra em Santa Maria do Itabira, ouvir minha avó cantarolar as músicas do Nelson Gonçalves, lembrar dos tempos de colégio com os amigos, quando tudo ainda era (menos) acelerado.

Eu mando emails só com "Te Amo" pros meus amigos. Mas eu não perco nenhuma oportunidade de dizer isso olhando pra eles. E eu acho que é daí, do meio do caos, que a gente consegue voltar pro começo.

Ainda vou fazer o "dia sem BlackBerry", pra ver como me saio. Espero que eu sobreviva pra contar.

E eu tinha dúvidas sobre como escrever por extenso a letra "Y".
Aí o Google me ensinou.

domingo, 21 de novembro de 2010

Fases

Tem fases da vida da gente que são decisivas. Que você consegue perceber exatamente a linha entre o que você era e o que você está se tornando. O que acontece é que, na maioria das vezes, passar por essas mudanças não é fácil. A cabeça não pára, buscando respostas que só virão com o tempo, e o corpo reclama da inquietação constante. E é complicado quando o mundo não pára para que você possa por tudo no lugar, acertar as coisas, escolher quem fica e quem vai embora, dar uma organizada nos pensamentos e varrer o que não é bom.

A mente consegue voltar nos lugares mais escondidos, mais obscuros, buscando cada detalhe pra reviver, pra acertar os defeitos, pra falar as palavras não ditas e pra retirar aquelas que não cabiam. Você consegue rever cada detalhe com muita clareza, e isso te consome mais que qualquer coisa. Consome tanto que as pessoas a sua volta percebem seu cansaço, seu esgotamento, e não há como explicar o motivo. Seria mais ou menos - "ah, essa cara é de quem voltou lá em 2001 pra consertar algumas coisas." Não tem jeito.

Quando você faz esse (difícil) desdobramento, você consegue perceber quais atitudes e quais momentos trouxeram você até aqui. E você consegue aceitar o fato de que, por mais que você passe a vida inteira fazendo essa viagem de volta, não poderia ter sido diferente, por que, de alguma forma, tudo isso te fez estar onde você está. E consegue perceber que o melhor momento pra mudar tudo é agora, e que você pode escolher fazer o melhor por você, em honra do seu passado. E sobretudo em nome do que está por vir.

E é preciso gostar de desconhecer o amanhã.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Diferente

Meu estômago tem reclamado. Acho que o viveiro de borboletas - que crio dentro dele há muito tempo - começou a incomodar. A verdade é essa: vivo construindo e demolindo as minhas fantasias, é um exercício quase que diário (e muitas vezes nada inteligente). Viver pra encontrar momentos ímpares, pessoas conexas, músicas certas e mensagens nas entrelinhas não é fácil. É árdua a tarefa de ser diretor e ator da sua própria peça. E olha que a bilheteria nem sempre é sucesso!

Ontem conversei com um amigo sobre a complexidade que reside em seres assim, que dedicam boa parte do seu tempo aos seus castelos. É intrigante (e cansativo) o fato de a gente sempre correr atrás daquela sensação que ninguém nunca experimentou, de querer sempre que a música toque na hora certa, e se ela toca, ah, então o cenário é certo, e lá vão as fantasias tomar ainda mais forma.
Eu já sofri muito por ser desse jeito. Já quis muito que o tempo voasse, e foi quando ele passou mais arrastado. Já quis escolher a trilha sonora perfeita, já quis entrar na mente de alguém só pra acelerar a descoberta dos mistérios que ela guardava, e acabei me frustrando por não descobrir mistério algum.

Mentira se eu disser que não faço isso até hoje. Que não construo meus mundos, que não sou habitante deles boa parte do tempo. Talvez seja alguém que mora dentro de mim e que me convida todos os dias pra fazer parte desse contexto maluco. Talvez essa incansável busca seja minha vontade me fazendo procurar situações, músicas e pessoas (pra dizer o mínimo) que sejam como eu, que vejam a vida com isso tudo que quase ninguém vê. E eu tenho orgulho de dizer que coleciono mais acertos que enganos: nessas minhas expedições, já achei muita gente pra vida inteira. Algumas que conheci ontem, outras tantas que ainda vejo e convivo, outras que não mais, e tudo bem, todas elas vão continuar sendo pra vida inteira, porque elas são parte do que eu tenho de melhor, elas têm carinho pelas minhas divagações, elas gostaram (e gostam) de viver o meu mundo.

O que sinto é que venho aprendendo a aceitar o fato de que essas buscas são só minhas, e de mais ninguém. E eu sou a única responsável por dar a dimensão que elas precisam ter.

De tudo isso, o que fica são dois florais e alguns vários cigarros por dia, muitos pensamentos emaranhados, uma dor no estômago e uma vontade de viver que não passam.

E tem alguma coisa que me diz que dessa vez é diferente.